O abismo entre o bom trabalho e os influenciadores digitais

O que está acontecendo com a produção de conteúdo e o compartilhamento das informações?! Pra quem ainda não sabe, tenho uma agência de live marketing (contei mais sobre a minha mudança de carreira aqui) que cria e produz eventos e ações com foco no digital, então convidamos e contratamos influenciadores com bastante frequência. Não é de hoje que essas pessoas que se intitulam influenciadores digitais, não estão preocupadas com o conteúdo que publicam (quando publicam algum tipo de conteúdo). Elas usam e abusam deste título para ter acesso à lugares que pessoas “comuns”, com rotinas “comuns”, não conseguem entrar e, ao invés de mostrar tudo o que podem desses lugares, ficam apenas ostentando o convite e tirando selfies desnecessárias. É claro que não posso generalizar e que existem sim perfis que desempenham um bom trabalho, mas são bem poucos.

Tenho visto bastante reclamação por parte de influenciadores, das mais variadas possíveis: que não encontram espaço no mercado tão inflado, que seu conteúdo não chega até os leitores/seguidores, que não são convidados para eventos ou não são contratados para ações pagas e até que não são respeitados como profissionais! E a pergunta que eu me faço é sempre a mesma: essas pessoas que vivem reclamando, se preocupam com o conteúdo que produzem? Se você não alcança o seu seguidor, talvez seja porque o seu conteúdo não seja mais relevante pra ele. Não adianta colocar a culpa no algoritmo. Sim, é difícil produzir conteúdo autêntico toda semana e ao mesmo tempo relevante. Mas se fosse fácil, todo mundo que entrou nesse meio estava rico e famoso!

A grande maioria não se preocupa com o conteúdo produzido. Posso afirmar isso, pois vejo e vivo isso na minha rotina. Produzimos eventos para os nossos clientes lá na agência, que investem parte de seu planejamento para divulgação de ações, afim de levar informação relevante para um público cada vez maior. Pensamos em cada detalhe para que os convidados possam ter uma experiência incrível, mas na maioria das vezes, o que vemos no final, é sempre o mesmo conteúdo produzido por todos aqueles que frequentam. Nada de novo, nada pensado previamente, nada planejado. Não estou falando aqui só dos eventos que nós produzimos, mas de todos os outros que acompanho como mera seguidora de muitos influenciadores Brasil afora. Vejo marcas fazendo coisas incríveis, mas nunca consigo maiores informações, porque quem tem acesso, quem foi escolhido pra mostrar, simplesmente não se preocupa com isso, está lá só pra dar “pinta” e ostentar o #lookdodia.

Recentemente aconteceu mais uma edição do PBFW em Curitiba e eu estava ansiosa pra acompanhar digitalmente, já que tinha evento pela agência no mesmo dia e não poderia acompanhar de perto (sim, cogitei ir até lá pra assistir). Segui todos os influenciadores VIP’s que foram convidados para mostrar parte da produção e do backstage e fiquei bem decepcionada. Pra vocês entenderem do que eu estou falando mais claramente, uma dessas pessoas chegou atrasada e disse isso com total naturalidade para seus cem mil seguidores. Posso estar exagerando? Atrasos acontecem? Me desculpem, mas foi convidado para estar em um lugar privilegiado e chega atrasado? Pior do que isso foi o conteúdo mostrado depois desse total descaso com quem o convidou. Resumindo a ópera, acompanhei o evento pelas próprias mídias do mall, que apesar de mostrar de uma forma mais comercial, me apresentou tudo o que fazia parte do evento. Tem uma matéria bem legal na Even More, revista curitibana, que fala de uma maneira bem sincera parte do que relatei aqui, já que eles também estavam nesse seleto grupo convidado e fizeram parte da equipe de cobertura do evento pelo mall.

Diante disso, também surge um novo questionamento: e os veículos tradicionais e grandes portais, que também deveriam fazer esse trabalho, de divulgar de uma forma mais geral o contexto dessas ações?! É raro encontrar matérias bem feitas sobre tais ativações, com informações completas e conteúdo relevante. É verdade que estes veículos estão morrendo?! Pode até ser, mas talvez isso esteja acontecendo porque eles acreditam mesmo nisso e tenham jogado a toalha. Recentemente li em um artigo da Meio & Mensagem o seguinte:

Segundo o último balanço divulgado pela Pesquisa Brasileira de Mídia, os jornais impressos estão na liderança quando o assunto é confiança nos meios de comunicação — 59% dos entrevistados confiam sempre ou muitas vezes nas notícias publicadas em jornais. Assumimos, portanto, que a credibilidade está ainda baseada em um meio que chegou a ser anunciado como morto pelo rádio, depois pela TV e, mais recentemente, pela internet, mas que persiste como um bastião da confiança nacional, à frente da TV, de grandes empresas e outras entidades.

Ou seja, se o mesmo conteúdo produzido no impresso tivesse conquistado também seu espaço no digital, talvez esses veículos não estivessem ficando cada vez mais escassos. Posso citar como exemplo o maior jornal da minha região, que não possui presença digital expressiva e mal publica os eventos que acontecem por aqui. O que sinto é que a mídia tradicional virou um grande comércio e pra aparecer, o cliente tem que pagar. E o que aconteceu com o jornalismo na sua forma mais pura de comunicar e levar a informação pro público final? Não sei.

Mas de uma coisa eu tenho certeza: quem tiver tempo, vontade e coragem para criar e seguir com uma mídia própria e nichada, com o objetivo de comunicar e levar informação pra quem procura (e nunca acha), vai nadar de braçada na comunicação brasileira nos próximos anos.

Fonte da Imagem: Pixabay

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